O sono do bebê e as pressões sociais.

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O nascimento de um bebê impacta fortemente a vida de um casal. Seja quando os pais nunca tiveram filhos, os ditos pais de primeira viagem, ou mesmo os pais mais experientes. Ambos impactados de forma diferente: os primeiros pela absoluta inexperiência, os segundos por perceberem que a experiência com o primeiro filho ajuda, mas não muito.  Afinal, pais com dois filhos passam a lidar com uma situação que também não possuem experiência – a relação entre duas crianças.

Existe uma perceptiva bastante romântica na construção de uma família que tem origem na ideia de que duas pessoas que se amam são responsáveis pela felicidade um do outro, são as metades das laranjas, as tampas das panelas, as almas gêmeas e o filho seria uma coroação desta relação. Mas, fato é que em muitos relacionamentos o nascimento do filho está mais para um belo drama do que pela romatização dada pela sociedade.

Costumo dizer que filhos são um “evento estressor” em um relacionamento. Não quero dizer que eles sejam algo ruim, mas sim que será necessário jogo de cintura dos pais para conseguir manter uma vida em harmonia após o nascimento dos filhos. E a responsabilidade disso nunca será da criança.

Quando existe respeito e maturidade entre o casal, conseguem desenvolver diálogos relacionados as necessidades um do outro e isso torna a dinâmica familiar mais leve e com maior sensação de felicidade. Entretanto, quando isso não ocorre as chances de uma crise na relação é muito presente. Tudo isso devido ao desgaste destes primeiros anos envolvidos em atender as necessidades das crianças (que naturalmente são muitas) e as exigências sociais da vida moderna.

Nós, seres humanos, quando bebês somos extremamente dependentes do carinho, do afeto, do cuidado e do contato dos nossos pais. Essa é uma característica evolutiva da nossa espécie.

Os primeiros anos de vida de um bebê são um período bastante crítico. O principal motivo está relacionado as demandas de cuidado frente aos comportamentos naturais de um bebê e as maneiras como nos nós estruturamos como sociedade. Encontrar um equilíbrio entre as necessidades naturais de nossa espécie e as rotinas impostas pela organização social é um grande desafio. Refletir sobre isso é a única maneira de evitar que os bebês, tão sensíveis, não paguem o preço dessa conta.

Um exemplo muito claro dessa “pressão social” sobre comportamentos naturais está relacionado ao sono do bebê. O padrão de sono infantil é muito diferente do padrão de sono de um adulto.

De forma resumida, o sono dos bebês é composto pelo sono REM (uma fase mais ativa do sono em que o bebê se mexe, resmunga, choraminga ou muda de lado) e pelo sono NÃO REM (uma fase de sono mais calmo). E, para passar de um ritmo de sono para outro, os bebês apresentam o que chamamos de SONO DE TRANSIÇÃO. Deste modo, durante toda a noite há uma alternância entre estes tipos e sono.

Cada ciclo de sono (REM – TRANSIÇÃO – NÃO REM) pode durar de 90 a 110 minutos e quanto menor a idade, mais curto o ciclo. Em alguns momentos destes ciclos a criança vai ter micro despertares, abrir os olhos e solicitar os pais.

Ao nascer a proporção entre sono REM E NÃO REM é de meio a meio. A medida que o bebê cresce o sono NÃO REM irá se subdividir em fases N1, N2 e N3 (que não comentarei aqui) e a duração do sono REM irá diminuir. Os ciclos também ficarão mais longos.

Ou seja, os bebês possuem ciclos de sono mais curtos e possuem também mais tempo de sono agitado e leve se os compararmos com adultos.

À medida que crescem, os ciclos de sono mais longos e o tempo de duração do sono leve e agitado diminui. Ao nascer, o bebê dorme muito durante o dia e à noite. Com o tempo, o sono vai se tornando predominantemente noturno com o desaparecimento gradual das sonecas diurnas.

Para adormecer, a criança precisa se sentir segura. E obviamente a segurança, em bebês, significa o colo, o peito, a presença dos pais. Este é um instinto natural de preservação e nos acompanha desde os primórdios.

Diante desta dinâmica natural de sono encontramos pais exaustos. Mas isto está relacionado com a rotina que criamos e não com nosso desenvolvimento neurofisiológico natural. Entretanto, vivemos um problema quando tentamos tratar o não tratável, curar um problema que não existe e modificar um comportamento natural. O impacto de tentarmos mudar nossa natureza diante de um padrão normativo de funcionamento social pode gerar sérios problemas aos bebês e famílias.

Um fenômeno comum tem acontecido, o surgimento de inúmeros “consultores de sono ” que se dedicam a treinar o sono dos bebês – o que para mim é absolutamente inapropriado, e explicarei os motivos:

O primeiro problema está relacionado a amamentação. A Dra. Pamela Douglas, uma médica australiana, conseguiu provar em uma revisão sistemática que bebês submetidos a treinamento de sono, antes dos seis meses de idade, podem sofrer desmame precoce.

Isso porque interferir no padrão natural de sono do bebê implica em vários ciclos de sono sequênciados, sem solicitação dos pais. Consequentemente, este bebê irá mamar menos vezes e o seio materno será estimulado muito menos na madrugada, e o segredo da produção de leite está na sucção. Quanto mais o bebê suga, mais leite é produzido. Quanto menos ele suga, menos leite haverá no dia seguinte.

Importante dizer também que na madrugada há o pico da prolactina, um hormônio envolvido na produção de leite.  Por isso a sucção ao seio, na madrugada, em conjunto com este pico hormonal, gera muito mais leite no dia seguinte. Logo, o bebê que dorme mais, de forma não natural, suga menos e não pega o pico da prolactina.

Para muitas mulheres, fartas em leite, a produção menor pode não fazer diferença na amamentação. O bebê continua mamando bem de dia e ganha peso satisfatoriamente. Para outras, infelizmente, o resultado pode ser outro. A pouca estimulação leva a baixa produção de leite com inquietação do bebê durante as mamadas, choro e baixo ganho de peso. Como consequência muitos pais recorrem as fórmulas e mamadeiras em muitos casos o desmame indesejado e precoce acaba acontecendo.

Outra questão é que o leite materno noturno é rico em triptofano e melatonina. Estas duas substâncias são auxiliares no sono do bebê de forma a favorecê-lo. E se o bebê ingere menos deste leite, pode ter um sono mais agitado apesar de todas as técnicas ensinadas.

A amamentação é protetora da morte súbita. Bebês que mamam em seio materno morrem menos de forma abrupta e inexplicada durante o sono.  Por isso, ao elevar índice de desmame os treinamentos elevam também risco de morte súbita.

Os treinamentos de sono sugerem que o bebê permaneça no berço, porém, para o bebê estar longe dos pais pode ser percebido com uma grande ameaça a sua sobrevivência. E o choro não atendido pode levar a um estado de hiperativação do corpo da criança, com liberação de hormônios do estresse (cortisol e norepinefrina). Eles elevam a frequência cardíaca, dilatam a pupila, elevam a respiração, causam suor. O corpo da criança entende que está sob ameaça. Nessa hora a criança pode vomitar, devido ao estresse. O ato de vomitar ativa o sistema vagal, responsável por abaixar a frequência cardíaca e ajudar a acalmar toda esta explosão hormonal. Estes hormônios quando em excesso podem mudar a arquitetura cerebral e diminuir a capacidade dos neurônios se conectarem, diminuir o volume cerebral e predispor a várias doenças na vida adulta. Estresses intensos, de forma sequênciada, podem causar danos inclusive ao sistema imunológico.

Deixar de atender as solicitações da criança podem causar também a ruptura do vínculo com a figura de apego. Um apego seguro é construído com respostas atenciosas às necessidades das crianças. Elas precisam sentir que possuem pais responsivos para atender suas necessidades. Quando a criança é parcialmente atendida, ou tem a resposta à sua demanda atrasada para tentar prolongar o sono, a figura de apego seguro é rompida.

É inapropriado racionalizar o instinto, é inapropriado induzir uma mãe a pensar sobre o porquê de seu filho estar chorando antes de oferecer o peito. Os consultores de sono sugerem que este contato com a criança é um comportamento prejudicial ao sono. Assim como não recomendam embalar ou deixar dormir no peito ou no colo.

Somos todos neurodiversos e tentar sobrepor a comportamentos instintivos tabelas de sono e tempos determinados de sonecas é uma falácia que leva as famílias a pensarem que seus bebês são doentes, que possuem problemas, distúrbios graves, ou que não são bebês “normais”.

O bebê adormece no seio porque atingiu o relaxamento e a sensação de segurança necessária. Durante a noite, alguns bebês podem resmungar, choramingar e mesmo antes que você chegue até ele, já poderá ter retornado ao sono sem seu contato. Porém, alguns, durante este breve despertar poderão ter um maior estado de consciência e sentir a necessidade do mesmo estado de segurança que tinha quando adormeceu pela primeira vez. Isso significa que ele irá solicitar o seio, o colo, o contato novamente para entender que está em um ambiente seguro.

Em média, crianças amamentadas e atendidas quando solicitadas podem demorar 3 anos ou mais para dormirem uma noite sem interrupções. Mas não existem regras e existem muitas variações da “normalidade”. Assim como também é natural os bebês acordarem várias vezes numa mesma noite por uma semana e depois dormirem melhor em outra semana, de forma totalmente aleatória e sem regras ou linearidade.

Essas são algumas razões pelas quais acredito que interferir no sono seja um completo absurdo. Principalmente porque essa interferência não se fundamenta em uma necessidade da criança e olha mais para o “bem-estar” do adulto.

Perceba que essas consultorias não mudam as fases do ciclo de sono do seu filho. Ele continuará acordando na madrugada com pequenos despertares. A única coisa que fará é que ele não solicite você à noite. Mas isso é bom para quem?

Segundo Barbara Nicholson e Lysa Parker, autoras do livro “Attached At Heart” comentando os problemas relacionados ao treinamento de sono afirmam:

“Um bebê não é capaz neurologicamente de se acalmar para dormir de maneira saudável. A parte do cérebro que lhe permite começar o processo de aprender a regular suas próprias emoções, ou auto acalmar, não está bem desenvolvida até os dois anos e meio a três anos de idade. Bebês e crianças pequenas dependem de seus pais para ajudá-los a se acalmar e aprender a regular seus sentimentos intensos – eles são os “reguladores emocionais” da criança.”

Com isso quero mostrar que o real problema é o cansaço, o desgaste e a sobrecarga materna e não o sono do bebê. Essas mães precisam de apoio e ajuda e é isso que irá melhorar a qualidade de vida neste período. Para ajudar, vou listar algumas estratégias chamadas higiene do sono que poderão ajudar a melhorar essa questão:

  • Deixe sua casa clara durante o dia e o quarto o mais escuro possível à noite. Isso ajuda na regulação dos hormônios do despertar e do sono, que são estimulados pela luz ou pela ausência dela. Evite luzes brancas, prefira luzes amarelas, mais relaxantes.
  • Evite televisores ligados no ambiente em que a criança está. Evite o acesso a telas, tvs e celulares principalmente à noite. Evite o acesso a qualquer horário para crianças menores de dois anos.
  • Respeite as sonecas diurnas. A criança não dormirá melhor à noite se evitar que durma durante o dia.
  • Mantenha o ambiente calmo, principalmente à noite. Evite brinquedos barulhentos com músicas irritantes. Os bebês não precisam deles.
  • Faça rituais de sono, com pouca luz, banho, música relaxante e até uma massagem. Com o tempo o bebê entenderá que a hora de dormir está chegando.
  • Aprenda a reconhecer os sinais de sono do seu bebê. Está choroso sem causa aparente? Coça os olhos ou ouvidos? Solicita colo? Ofereça a segurança necessária para ajudá-lo a dormir.
  • Tente construir uma rotina. A previsibilidade das atividades que irão acontecer deixará o bebê confortável e tranquilo. Mantenha o horário do sono noturno o mais regular possível.
  • Durante os despertares noturnos, apenas o atenda de modo calmo e sereno. Evite luzes e barulhos.
  • Amamente se puder, o leite materno da madrugada tem triptofano e melatonina que ajuda no sono e protege da morte súbita.
  • Mantenha a criança em um local seguro durante seu sono, com roupa adequada e ambiente com temperatura agradável.
  • Use ruído branco (barulho semelhante a um chiado de rádio ou uma chuvinha, de forma contínua) e se você amamenta, evite o excesso de cafeína ingerido rotineiramente.
  • Tenha paciência e atenção ao excesso de expectativas, com o tempo o sono da criança irá se regularizar naturalmente.

Ainda assim, dentro de um padrão de normalidade e de neurodiversidade alguns bebês serão muito exigentes de cuidados. Se essa for a sua realidade, peça ajuda de familiares e, se puder, considere contratar alguém para ajudar neste período – se sua rede de apoio for limitada.

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